Aouila no Teatro
   TRAIÇÃO

Não é de hoje que as peças inglesas tem suas montagens muito bem cuidadas nos palcos do Rio. E essa nao é diferente. Uma linda montagem de Harold Pinter, um super-autor que ja ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, precisa dizer mais? Sim. Pinter escreve aquilo que a gente vê na rua. Em uma entrevista dele, disse que presenciou uma conversa entre duas mulheres no metrô e... bingo, lá estava um texto de teatro. É assim que a banda toca. Vendo e observando o que a vida nos diz, nos ilustra, e Pinter faz com maestria. Seu texto é leve, rápido, inteligente, crível e instigante. A gente nao para de pensar em "como é que isso vai acabar", e fica imaginando o fim da historia e os rumos que aquelas vidas podem dar. O que eu mais gosto nesse texto é que ele é contado de trás prá frente. Calma, nao estraguei nada. Desde o início a gente sabe. Além de estar no programa, no palco já se vê a passagem de tempo, pra trás. Existem na história várias traições. Cada uma ao seu tempo. A traição do amigo, da esposa, do amante, da amante, do marido, e até mesmo a traição do tempo.

A direção do Ary Coslov é impecável. De uma qualidade, uma elegância, uma calma, uma dedicação que poucas vezes vemos no palco. As cenas montadas estao sempre sendo bem tratadas, as posições dos atores no palco, a entonação de cada frase, o comportamento e as reações de cada personagem sao tratadas de maneira elegante e simples ao mesmo tempo. Sem duvida nenhuma uma direção responsável por toda a elegancia, e a parte técnica excepcionalmente correta de todo o espetáculo. Vai ganhar premio, anota ai.

A cenografia, do Marcos Flaksman é linda. Tudo sai de um super armário ao fundo, onde cada peça, lindamente escolhida, espera o seu momento de entrar em cena. Tudo isso muito bem arrumado, sem pressa, com elegância, por um contra-regra ator, que, ao subir as escadas para mudar o tempo, dá uma pausa de respeito ao proprio tempo e limita passado e presente. Gosto quando o cenário é montado aos olhos do publico. Nós já começamos a perceber que aquela cama é de tal ambiente, o sofá do outro, a mesa daquele. Isso traz a platéia pra dentro do palco. Ficamos íntimos ao espetáculo. Logico que tem dedo do Ary nessa historia. Ponto para os meninos!

O figurino é elegantissimo! Supercorreto quando se trata de verão, inverno, clima ameno, época, qualidade dos materiais escolhidos, leveza e cores. Muito bom gosto. A luz do Aurélio de Simoni, como sempre valoriza os espaços, valoriza o trabalho dos atores, valoriza a direção e valoriza o figurino. Com isso ela, a luz, ao mesmo tempo que valoriza as outras qualidades da peça, se valoriza por estar presente, iluminando sem ofuscar. Linda luz.

Vale destacar também a trilha sonora composta de cançoes dos anos 70, época da peça, pautadas em Erik Clapton e Rolling Stones, mais inglês impossivel.

É na interpretação dos atores que a direção tem a sua maior aliada. Todos, sem excessao, estao muito bem. Em ordem crescente de qualidade, Isabella Parkinson é a que, algumas vezes, se perde um pouco, ou perde um pouco das entonações corretas das frases e palavras, mas sua atuação no todo garante seu talento de boa atriz. Isio Ghelman é a personificação do personagem Jerry. Consegue entrar de tal forma no personagem que a gente nao sabe se ele é Isio ou se Isio é ele. Compreendemos tudo o que ele faz no palco. As suas atitudes estao sempre de acordo com cada cena. Um belo trabalho. Mas é Leonardo Franco quem rouba a cena. É sem duvida nenhuma uma peça divisora de águas na vida deste grande ator. Sempre fui fã do Leonardo, mas agora, depois de tê-lo aplaudido de pé, tenho certeza que seu talento irá ser reconhecido nos 4 cantos deste Brasil varonil. Um trabalho para prêmio. Uma indicação já será um reconhecimento, mas o prêmio é mais que justo. Sua qualidade de interpretação em cena é tão correta, tão elegante, que ficamos sem saber se o diretor teve trabalho para domar Leonardo ou se Leonardo botou o diretor no bolso e toda a peça saiu atrás de seu talento para ser encenada. Parabéns ao elenco.

Um espetáculo elegante, bonito, correto, lindo e que nos faz pensar (afinal a função do teatro é essa...) sobre as traições nossas de cada dia. Imperdível, nota 10.

Até a proxima.

TRAIÇÃO - Solar de Botafogo, de quinta a sábado 21h30 e domingo às 20h30



Escrito por Marcelo Aouila às 11:02
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   INVENTÁRIO

Fui na estreia da peça Inventário, com texto e atuação dos Doutores da Alegria, aqueles "palhaços" que animam a vida das crianças internadas em hospitais. As historias vividas no palco, ou revividas, são situações bem reais pelas quais os atores passaram, e ainda passam, pelos hospitais da vida. A criança que tem medo, o médico que implica com os Doutores, a falta de medicamentos, as gafes, e, claro, as alegrias, que é o que move essa turma a continuar esse excepcional e belissimo trabalho para as crianças dodóis.

O espetáculo é lindo. Os atores, cujos nomes vou ficar devendo, procurem no tijolinho do jornal, estão excelentes. Todos conseguem ter seu momento de gloria, com aplausos em cena aberta e silêncios constrangedores e necessários por parte do publico. A gente ri do inicio ao fim, e se emociona, do inicio ao fim. Todos, sem excessao, sao maravilhosos, com tempos corretos de comédia e de drama, o que nos permite entrar em todas as historias contadas e sair delas sempre com um aprendizado pra toda vida: A Solidariedade é o que move o mundo.

O cenário é composto de pequenos objetos e cadeiras que nos permite, em segundos, nos transportar para uma maca, uma cadeira de rodas, um banco de corredor. Pra que mais? Ah, sim, os objetos. Todos estao ali e todos sao utlizados. Palmas! O figurino é bastante adequado. Tudo na medida certa. A luz imponente e carinhosa, respeita espaços, sugere lugares. Linda. A trilha é bem adequada.

Mas é a direção que tem seu grande mérito, de conciliar trechos tristissimos com piadas hilárias, trechos melancólicos com sorrisos de compaixão. Muito bem explorado cada canto do Teatro dos Quatro, onde cada ator, no seu tempo, sabe dar seu recado, sem concorrer com o colega, ou seja, solidário ao colega e ao publico.

Um espetáculo emocionante, inteligente, rico em sentimentos, criativo, correto, bonito e feliz. Como tem q ser a vida de um palhaço-doutor. Imperdível!

Ja vem outra peça!

Bjos.



Escrito por Marcelo Aouila às 10:52
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